quinta-feira, maio 18, 2006

Vários seres

Vários seres


Acredito em tudo. Sou muito bobo, tolinho, acho que as pessoas não podem fazer mal algum. Inclusive, acredito que a cadeia serve mesmo para recuperar infratores, assassinos, ladrões, ou simples delinqüentes estúpidos. Este negócio que dizem que o preso quando recebe a tão sonhada liberdade sai de lá absolutamente recuperado, pois foi condicionado durante a prisão a viver harmoniosamente com os outros condenados, é tudo verdade. Sai agarrado com uma bíblia debaixo do braço pregando a palavra de Deus pela rua, na sua casa, na vizinha. Ele vai até a boca de fumo e pede para os jovens não fazerem isso. Acredito tanto no ser humano, leitor, que acho todas as condenações injustas. Os juizes são doidos que inventam situações inimagináveis. Aliás, Hitler jamais existiu.
Pois é. Chegamos ao cúmulo da insanidade. Apenas quando não nos deixam sair de casa com tranqüilidade, sabendo sobre a segurança de nossos filhos e familiares, somente nestes momentos, perdemos completamente a compostura e deliramos, acreditando mais uma vez num ser humano que diz “tudo bem, obrigado senhor presidente, mas não precisamos de ajuda federal para conter nossos calmos marginaizinhos, que saem de nossas prisões absolutamente reabilitados para um harmonioso convívio social”. Mal sabe ele que o mal existe há muito tempo, que os homens são os bichos da pior espécie, que aquela comunidade do orkut “Eu acredito no ser humano” é uma lástima, que o autor da comunidade só poderia estar bêbado quando teve a infeliz idéia de faze-la. Ou talvez, esteja este pobre rapaz que vos escreve, enganado. O ser humano existe. Estes que fazem este tipo de coisa são outros seres, enviados por não sei quem, para o meio de nosso planeta e para o centro de nossas metrópoles. Não são humanos. Humanos não fazem isso.
Existem pessoas tão boas, aquelas que possuem amigos, criam carinhosamente seus filhos, vivem em paz com sua esposa, vão jogar futebol e não xingam sequer o juiz. Existem aqueles que fazem amizade com o chefe, convidando-o para jantar com sua família no sábado. E existem ainda aqueles que jamais teriam coragem de desviar dinheiro público, conceder hábeas corpus para assassinos e livrar executores de crimes hediondos de penas mais pesadas. Existem aqueles que jamais pegariam em armas.
Só para se ter noção, preso tem mais direitos que os aposentados, mais direitos que os assalariados e trabalhadores. Foram presos que fizeram o que fizeram em São Paulo. Presos que comandam o crime organizado de dentro da cadeia, com direito a pizza, x mignom e churrasquinho no domingo. E observo Marcola, o líder do PCC, mais ilustre que muitos, esnobar: “Se a gente fosse ouvido e atendido dentro da Constituição e dentro da lei, nada disso teria acontecido". Temos um grupo terrorista no Brasil, como a Irlanda tem, Palestina tem, Afeganistão tem.
De toda esta história, tirei a seguinte conclusão: precisamos de outra denominação. Não somos mais uma espécie. Darwin estava certo com sua teoria. Hoje somos vários seres.

segunda-feira, abril 03, 2006

O orgulho que deveríamos ter (crônica)


O orgulho que deveríamos ter

Escrevo este simples texto como pagamento de uma dívida. Há duas ou três semanas, durante um churrasco regado a muita cerveja, fui interpelado incisivamente por um grande amigo, amigo mesmo, destes que dificilmente se encontra por aí. Seu nome: Felipp Frassetto, que só é usado por seus pais e parentes mais próximos. Seu outro nome, o nome que chamamos, é Godão. Sem sobrenome. Somente Godão.
Graças a Deus, Godão é um cara indignado, pois somente os indignados têm assunto. Uma mistura feia de pão e salame saía de sua boca enquanto falava, mas outra coisa chamou minha atenção. Intimou: “Glauco, ninguém diz nada sobre o centenário do primeiro vôo de Santos Dumont. Os meios de comunicação não estão tão interessados em Marcos Pontes, primeiro astronauta brasileiro. Escreva sobre isso!” Seu pedido é uma ordem, meu amigo.
É a mais pura verdade. O Pai da Aviação foi esquecido nos corredores obscuros da história. Mesmo alguns brasileiros colocam em xeque a façanha de ser ele o primeiro a voar. Decerto, um bando de imbecis que invejam e desejam a soberania calhorda e mentirosa dos EUA. Estes sim credenciam os tais irmãos Wilbour e Orville Wright, que juraram com os quatro pés juntos (ou seriam patas?), que voaram antes de Dumont num lugar onde ninguém viu, ninguém testemunhou, ninguém soube. Aos olhos de países de grande poderio econômico e mentes diminutas, é pecado um brasileiro ser o inventor de qualquer coisa. Mal sabem, os pobres, mas o brasileiro é capaz até de inventar a felicidade onde ela não existe.
100 anos depois de Dumont levantar vôo no Campo de Bagatelle para centenas de pessoas, milhões vão acompanhar a aventura destemida de Marcos Pontes, o primeiro brasileiro a ver a Terra de tão longe. Escrevo esta linha a cinco horas do lançamento do foguete russo Soyus TMA 8. Escrevo esta linha logo depois que encontrei no site oficial do primeiro astronauta brasileiro a seguinte frase: “Minha luta não é para chegar ao espaço. Minha luta é para mostrar aos jovens que tudo é possível, se realmente desejar”. Enquanto aqui embaixo temos tanto a nos decepcionar, com o país afundado num poço de corrupção, olhemos para o céu. Lá em cima, mais uma vez, teremos com que nos orgulhar, e o orgulho, ao contrário da decepção, não tem limite.

segunda-feira, março 20, 2006

crônica

O preço que se paga

Saio de casa sem compromisso com o horário. Estaria ao longo daquela linda manhã de sol, com pássaros felizes pousados em árvores vistosas, me dedicando ao prazer ou desprazer de observar o comércio. Pesquisaria os preços de algumas coisas que necessito comprar, dentre eles, livros, sempre os livros, e como são caros os miseráveis dos livros novos.
Chatô. O Rei do Brasil, de Fernando Morais. Budapeste, de Chico Buarque, e Memórias de minhas putas tristes, do autor colombiano, Gabriel Garcia Marques. Estes foram os três livros que comprei por R$117,00. Não havia desconto, promoção, absolutamente nada. Logo, dificilmente haveria cultura. Paguei este valor porque os darei de presente. E ainda estão comigo, pois estou lendo cada um deles. Sinto que ler estes livros é do meu direito, e estou lendo com uma atenção muito maior. Todas as vírgulas passam pelos meus olhos. Paguei caro por todas os hífens, pontos, crases e reticências.
O incentivo do Governo Federal para que o aluno do ensino publico cuide de seu livro é uma grande jogada. O livro, pelo preço que se paga, deveria ser eterno. Não deveria rasgar ou sujar. Poderia ser impermeável, para que eu pudesse ler na rua, debaixo de uma torrencial chuva de verão. Deveria ser a prova de neve, fogo, até mesmo a prova de bala, para usa-lo como escudo durante um fogo cruzado. Pelo seu preço, o livro deveria servir para educar os netos do meu tataraneto.
Chatô eu já havia lido. É um livro interessante, como todas as outras biografias de Fernando Morais. Chatobriand foi o grande responsável pelo surgimento da televisão no país. Além disso, era um tarado, gostava de se arriscar nos negócios, individando-se muitas vezes até o pescoço e adorava ser dono do poder. Terminei ontem Memórias de minhas putas tristes e fiquei impressionado com a riqueza de sentimentos daquele velho que desejava comer uma garota virgem no seu aniversário de 90 anos. Teve um relacionamento avassalador por Delgadina, mesmo que durante todo o livro ela tenha permanecido de olhos fechados, dormindo. Não trocaram uma só palavra. Ah, o personagem principal escrevia crônicas dominicais para o El Diário de La Paz. O gosto pelas crônicas é a única coisa que temos em comum, o velho e eu. E agora, comecei Budapeste, aventura do Chico Buarque pelo mundo das letras. Torço para que seja um livro muito bom, senão novas lamúrias partirão do meu peito, na opinião de sempre que um livro não deveria custar tanto.
No caixa, ao desembolsar esta volumosa quantia, deixei no balcão da livraria um tanto da felicidade que carregara até então. Não pelo dinheiro, ou melhor, também por causa dele, mas por um sentimento ruim, uma vontade de perguntar à balconista, que ganha um salário mínimo, se ela já havia comprado algum livro daqueles que vendia. Não sei qual seria sua resposta, talvez até comprasse um livro novo por mês, quem sabe, mas, minha vontade mesmo, quando deixei a loja com os três livros na mão, era de voltar e lhe sussurar ao ouvido que no topo daquele morro existe um Sebo onde Dom Casmurro, de Machado de Assis, custava quatro reais. Lá, no topo daquele morro existia mais cultura, onde o sol brilhava mais bonito e os passarinhos cantavam mais alto.

quinta-feira, março 09, 2006

Crônica

Bombas, Terroristas e o Presidente Lula.

Muitos não dão bola, mas gosto demais da parte do jornal sobre os assuntos internacionais. Talvez não goste tanto como a página de esportes, mas certamente os assuntos internacionais chamam mais minha atenção do que parte das novelas, horóscopos e culinárias que somente engordam minha impaciência. Mas, o assunto não é jornal impresso e suas variações e sim o que leio dentro deles, sobretudo nos tais assuntos internacionais.
A Coréia do Norte acaba de lançar dois mísseis acidentalmente contra a China. Que coisa estranha. Estes países possuem tecnologia para fabricar bombas, mas falta o cuidado para cultiva-las, paradinhas, esperando o momento certo para o lançamento de seu destino, talvez até contra homens, vai saber. Dizem possuir um controle dos países que estão fabricando armas atômicas, mas ninguém sabe quais são. Na realidade todos agem na surdina, até mesmo os EUA, que querendo dar prosseguimento à fama de maior potência bélica do mundo, finge vigiar outros países que aspiram por estas imbecilidades mortíferas. Não sei se o leitor já sabe, (eu soube esta noite enquanto escutava no rádio, nestes programas jornalísticos da madrugada) que já existe uma bomba, que, de tão poderosa, precisa de uma bomba atômica igual aquela lançada em Hiroshima só para ativa-la. Não sei seu nome, mas vou chamá-la de T8, afinal, todas as bombas são denominadas por uma letra seguida de um número, na combinação mais estapafúrdia que existe. Não adianta, como disse Einstein, a quarta guerra mundial será de paus e pedras, pois a terceira acabará com todos nós.
Viro a página. O Hamas derrotou o movimento Fatah nas eleições, com uma plataforma baseada no combate à corrupção. Todos sabem que o Hamas prevê em seu estatuto a pregação da destruição total de Israel e desde que assumiu o poder na palestina tem rejeitado os apelos da comunidade internacional para que reconheça o direito de Israel à existência. Quem achava o duelo Ariel Sharon x Arafat interessante não perde por esperar. Quantidades imprescindíveis de sangue irão jorrar. Enquanto isso o ocidente comandado pelo déspota Bush seguirá fingindo preocupação com os seguidores de Alá.
Agora, legal mesmo, foi abrir a página que falava sobre a viagem do Presidente Lula à Europa, mais precisamente a Londres. Lula conversou com Parreira, que também se encontrava na capital da Inglaterra, e demonstrou grande preocupação com Ronaldo: “Vi ele sendo vaiado pela torcida do Real Madri”. Disse isso com tamanha naturalidade, como se o seu governo estivesse sendo aplaudido de pé pelo povo brasileiro. Demonstração de insatisfação o brasileiro dá diariamente quando levanta pra trabalhar e depara com os ônibus de greve. Ronaldo está acostumado com pressões e vai tirar isso de letra na Copa, mas nosso presidente no alto de sua importância, deveria parar de pensar em futebol e fazer jus a esta viagem, que de exemplo até agora só trouxe o atraso de um minuto quando se encontrou com a rainha Elisabeth II e levou um pito do mestre de cerimônias. Ao contrário da fabricação de bombas que evoluem com o tempo, Lula está sempre atrasado, igualzinho a democracia no Oriente Médio.

terça-feira, março 07, 2006

O triste fim de Adelaide e Orestes

O triste fim de Adelaide e Orestes.

*Glauco Arns Moretti
Adelaide gostava de Orestes, mas não podia mais viver assim. Não era mais do jeito que imaginara. Sonhara quando jovem uma vida tranqüila, estável ao lado do seu marido, com filhos brincando no extenso gramado em frente de casa. Não queria muito, basicamente, uma vida amorosa ao lado do seu marido, e um bom dinheiro, até porque ninguém mais vive de amor.
Não agüentava mais Orestes. E ele, chegava em casa da mesma forma todos os dias. Deixava o jornal na mesinha azul ao lado do telefone e partia até sua esposa para dar-lhe um beijinho de “Oi, meu amor. Como foi seu dia?”. Mas os dias nunca foram. Adelaide fazia sempre à mesma coisa. Vivia enclausurada dentro de casa, assistindo a novelas, ou fazendo palavras cruzadas, lavando a roupa de Orestes, até tricô aprendera a fazer, vê só, uma mulher que ainda falta um tanto pra chegar aos 40. Orestes, coitado, seria deixado pela esposa.
É preciso dizer que foram felizes durante os cinco meses que estiveram juntos. Depois casaram, passaram a Lua de Mel no Nordeste, planejaram um filho que Adelaide perdeu por estas fatalidades que não se explicam. Foi assim. Estava sentada numa pedra olhando o mar e avistou um barco de pescadores ao longe. Muito longe. Ao lado deste barco, um facho de luz, um raio de sol, lindo. Este raio refletia na água turva e aparecia uma imagem fosca de um menino gritando: “Mamãe, mamãe, mamãe. Não fique triste!” E depois sumiu. Assustada, levantou-se e percebeu uma mancha de sangue que escorria pela pedra. Sua saia ficara vermelha e ela chorou, pois conhecera seu filho morto naquela imagem.
Orestes queria largar a esposa. Nunca perdoara Adelaide por ter perdido o filho de forma tão banal. Não acreditava que fora uma fatalidade e se fora, não achava que sua mulher poderia ser tão fraca. Por isso não deixava Adelaide trabalhar. Se acabou com a vida do filho sentado numa pedra observando o mar, certamente morreria com a loucura do cotidiano. Queria largá-la de qualquer jeito, mas tinha compaixão pela esposa, mas somente este sentimento, pois constantemente dormia com Lurdinha, sua secretária. Com Lurdinha o tesão se manifestava.
- “Oi, meu amor. Como foi seu dia”?
- “Meu dia não foi, Orestes. Mas a partir de hoje vai ser. Quero o divórcio, já contratei um advogado. Cansei de viver sendo culpada por uma fatalidade e não quero mais viver enclausurada dentro desta casa”.
E Orestes concordou assustado com a indignação de sua esposa. Não esperava que fosse tão forte para dizer-lhe aquilo e a admirou por isso. Convicta, em uma semana estava tudo acertado. Ela queria seus direitos, todos eles. A casa do campo, um apartamento que possuíam, e um dos carros, aliás, o melhor deles. A admiração de Orestes por “aquela fortaleza de mulher” foi aumentando. Ele ainda amava Adelaide. Como viveria sem ela?
Não importa. Ela se foi carregando suas coisas para morar na praia e por lá arranjar um emprego. Queria uma nova vida e alguém que a amasse. Ele queria Adelaide de volta. Mas, em todo caso, ainda havia Lurdinha, mas já não era tão prazeroso assim.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Crônica (Enterro)


Enterro

Há pouco, enterramos meu avô numa capela simples, novinha, de azulejos brancos e cintilantes. Transmitia paz àquela capela, levantada e produzida poucos meses antes, antevendo decerto a visita eterna de Max Arns.
Posso garantir. Homem rude, um metro e oitenta, outrora forte como um touro, passou a vida inteira na roça, dando prosseguimento ao trabalho de seu pai. Todos os irmãos se debandaram pela vida. Constituíram-se ali, por reflexo de uma excelente educação, dois engenheiros, uma médica sanitarista que concorre mais uma vez ao Nobel da Paz, um padre, um arcebispo que concorreu ao papado em 78, um professor e reitor da PUC, três professoras e quatro freiras. Meu avô ficou. Na mesma casa onde nasceu, em 1929, até o fim.
Ficou casado durante 54 anos. Amor de verdade, como dificilmente ainda se faz. Ao completarem 50 anos de matrimônio, durante a festa, me apresentaram uma foto do dia do casamento. Lídia Maurícia, minha avó, era ainda mais exuberante do que está hoje. Meu avô, caramba... Era bonito demais. Olhos claros, mente centrada, rosto esperto. Naquela época não havia modelos e ninguém seria louco de convidá-lo. Era um cara duro, com o coração quase sempre macio. Duras eram também suas pernas de atleta, de quarto zagueiro, de beque sério. Foi durante muito tempo defensor do Ouro Negro. Entendia de futebol, mas torcia pelo Flamengo.
Longos papos tivemos, mas todos agora me parecem breves demais. Copa de 50, o time inteiro na ponta da sua língua, um pequeno ressentimento com o goleiro Barbosa. “Nada disso, vô. Não tinha como pegar. E a guerra”? - E a guerra? Foram tempos difíceis. Primeiro não podíamos conversar em português. Depois não podíamos conversar em alemão. O exército veio até aqui pra prender o Opa (Pai). Inteligentíssimo, ele já sabia. Escapou antes, dizia.
Nunca tive coragem de perguntar sobre Hitler ao meu avô. Na realidade, tinha um certo medo e desconfiança na sua preferência pela hegemonia da raça ariana, tanto que, foi de certo modo complicado permitir o casamento de meus pais. Meu pai é descendente de italianos. E assim foi com todos os outros irmãos de minha mãe. Eu mesmo passei por sua reprovação quando levei minha primeira namorada para conhecê-lo Assim que entramos na cozinha, onde se encontrava desferiu: “Mais uma brasileirinha na família”, referindo-se a cor de pele que possuía, um pouco mais escura que a minha. Desejava nos ver sempre com loiras de olhos verdes. Era o seu jeito.
Morreu com 76 anos, igual seu pai e seu avô. Não merecia de nenhum modo todo sofrimento que passou nos últimos dias de vida, mas se foi aparentemente sereno, sem traços de dor profunda. Varri a sala do velório duas vezes para espantar o sono naquela madrugada extensa, e sempre que o olhava pensava nas mulheres que inventaram de pintar sem cor suas unhas. Sorte delas ele estar definitivamente morto. Meu avô não era de frescuras.

quinta-feira, setembro 29, 2005

Verbo engolir (crônica)



Verbo engolir











Hoje, incrivelmente, acordei de excelente humor. Geralmente, acordo p... da vida com o fato de ter acordado cedo demais. E sempre é cedo, por mais tarde que seja. Tudo bem, tudo bem. Acordei cedo e abri o jornal. Jornal de ontem, diga-se de passagem.
Foi o suficiente para terminar meu humor. Não é possível existir um poder tão destruidor. Mas a culpa não é do jornal, coitado, que procura imprimir os acontecimentos do cotidiano. A culpa é do cotidiano, um outro coitado, que imprime nas páginas atuais uma história nebulosa e vergonhosa. Histórias de situações provocadas pelos homens que possuem um mecanismo que faz o corpo viver. Este mecanismo, as pessoas de bem também possuem, mas com o nome de coração. E para nosso desespero, em muitos corpos, o mecanismo de sobrevivência bate no compasso das maquininhas de contar dinheiro.
Ah, voltando ao assunto, em cada página do jornal um assunto misturado com uma grande pitada de desgosto. É uma briga incessante de vaidades rumo ao terceiro nome da republica. Jogo de denúncias com ou sem qualquer tipo de fundamentação. Atraso na abertura de processos contra acusados de recebimento do mensalão. Invasão de sem- terras, sem tetos, sem vergonhas. Aumento incessante, contínuo, da gasolina. “O diretor da Petrobrás no Rio de Janeiro foi internado, então, aumenta-se à gasolina!”. Tudo é motivo. Árbitro de futebol vendendo resultados a troco de vergonhas publicas. Greves, greves, greves. Mais uma greve. Governo com gastos recordes nos juros. Irmãos Cravinhos podem ser soltos. Furacões, tufões, ciclones e outros desastres naturais, provocados também pela artificialidade do homem. Até o referendo sobre a proibição da comercialização de arma de fogo tem me tirado do sério. Não posso esquecer de nossas CPIs que movimentam os já cansados deputados e senadores às salas verdes dos corredores enormes de Brasília, rumo, por enquanto, a uma incógnita que pode resultar em coisa alguma. Uma outra greve, aqui nesta página! Enfim, estou de saco cheio de tudo que acontece no Brasil e no mundo, mas sem opções de viagem a outros planetas, continuo cá com minhas reflexões infundadas. Saturno seria um bom lugar pra se viver e aquele anel me causa a sensação de inviolabilidade. Lá, talvez, me sentiria mais feliz.
Mas, voltamos, como sempre, à realidade. Por mais que tente me esforçar em acreditar que tudo o que acontece é reflexo de uma boa ou péssima educação, parece que está dimensionado em poderes maiores. Exemplos em casa são dados. Muitas vezes diferentes do que são falados. Nenhum pai ensina seu filho a roubar, mesmo que o pai faça isso. Talvez existam exceções, como a família Maluf, mas são raros. Ainda a honestidade e ética sobrepõe-se a qualquer ensinamento familiar. Então, o que motiva tantos escândalos envolvendo os humanos? Não vale dizer que o homem é o único ser que se corrompe, mesmo sabendo que não existe outra resposta. O que fazer para que isso termine?
E por mais que eu queira, sei que não existe solução. Sei o quê encontrarei nos jornais de amanhã. Mais novidades sobre os escândalos de ontem e novos nomes envolvidos. Com ou sem educação, estarão lá depositados os fatos que desagradam, que inflam meu repúdio. E os verbos ler e apreciar que sempre andaram juntos, se transformaram no verbo engolir.
De fato, em Saturno me sentiria melhor, com seu grande anel e minha sensação de inviolabilidade.